Persistência e trabalho duro são o segredo do financiamento coletivo, diz fundadora da Kickante

Por Filipe Oliveira

O financiamento coletivo (crowdfunding, também conhecido como “vaquinha virtual”) pode ser uma alternativa para quem precisa de dinheiro para colocar sua ideia no mundo.

Nas páginas dedicadas a ele, vários projetos, incluindo culturais, filantrópicos e empresariais, são apresentados, informando quanto dinheiro precisam para se viabilizar. Os interessados podem fazer contribuições, em troca de recompensas (que podem ser um CD de uma banda após ele ficar pronto ou um almoço no food truck que está pedindo ajuda no site  quando ele for para as ruas, por exemplo).

Persistência é a característica mais importante para o empreendedor que quer ter sucesso em uma campanha dessas,  segundo Candice Pascoal, 37, fundadora do site Kickante, no ar desde 2013 e um dos principais do Brasil.

Nascida em Juazeiro (BA) e moradora de Amsterdã, na Holanda, Pascoal foi vice-presidente da gravadora Putumayo World Music e também trabalhou em campanhas de arrecadação de fundos para organizações como Médicos sem Fronteiras e Anistia Internacional.

Ela conversou com o Plano de Negócios sobre campanhas de financiamento coletivo no Brasil, investimentos em negócios iniciantes e empreendedorismo.

Candice Pascoal, fundadora da empresa de financiamento coletivo Kickante
Candice Pascoal, fundadora da empresa de financiamento coletivo Kickante

Plano de Negócios – Como o financiamento coletivo está se comportando na crise?

Candice Pascoal – O crowdfunding cresce em sentido contrário a economia do país. O motivo para isso é bem óbvio. No Brasil, estamos em momento em que as ONGs reclamam que as empresas não querem fazer doações de grande porte, os músicos estão reclamando que não conseguem patrocínio, as start-ups não têm facilidade para conseguir investimentos. Por tudo isso,  o crowdfunding vem como uma excelente resposta, não só muito barata, mas sem risco algum.

Por outro lado, não fica mais difícil conseguir contribuições em momento de aperto econômico?

Fazer doações [no crowdfunding] é muito barato. E, independente dos problemas econômicos, ainda precisamos comprar, ainda precisamos de música, de invenções.

Quando você compra via crowdfunding, o preço que paga é muito mais barato do que se esperasse o produto chegar a uma loja. Ele é, pelo menos, 30% mais barato. Esse desconto acontece por você estar ajudando a financiar o projeto e estar disposto a aceitar um tempo maior para receber o produto que será desenvolvido.

É comum ouvir que o brasileiro doa pouco e que faltam incentivos fiscais para doar. Essa falta de cultura não atrapalha?

Quando lancei a Kickante no Brasil, poderia ter lançado em qualquer lugar do mundo. Falavam para mim que o Brasil seria muito difícil.  Diziam que o brasileiro não doava e também que campanhas de mais de R$ 30 mil não aconteceriam.

Mas arrecadar é algo que se pode fazer com técnica, e hoje campanhas com esse valor são corriqueiras na Kickante.

Meu sonho, criando a Kickante, sempre foi impactar o Brasil. Não comecei a Kickante pensando em quantas campanhas lançar, quanto arrecadar. O sonho era que o crowdfunding fosse o braço direito do brasileiro.

Como compara o financiamento coletivo a outras formas de buscar investimento?

Dados do Banco Mundial mostram que o valor do crowdfunding no mundo vai superar o investimento feito por fundos de venture capital (capital de risco, que investem em empresas iniciantes em troca de participação no negócio).

O que mais gosto disso é que o financiamento coletivo é feito com custo muito menor, e sem risco algum. E o crowdfunding é democrático, qualquer um pode lançar uma campanha.

No venture capital, as mulheres recebem menos de um terço do que os homens recebem. Se você é tímido, vai ter mais dificuldade de conseguir um investimento em uma reunião com um fundo, por essa característica passar por falta de qualificação. Com o crowdfunding, essa dificuldade não existe mais.

Existem projetos melhores para o crowdfunding e outros para o venture capital? Uma empresa que vende um produto para público muito restrito, por exemplo, consegue se dar bem no financiamento coletivo?

Tem público. A campanha da Mecânica em Miniatura (de kit com peças de engenharia automotiva para montagem, com um sexto do tamanho original), por exemplo, é muito específica, de nicho. Queria arrecadar R$ 70 mil e conseguiram.

Isso também agrada, por ser um produto que ainda não existe no mercado e que é desejado. Se você gosta de sua ideia, com certeza vai achar um nicho que também é apaixonado por ela.

São muitas as campanhas que não decolam e ficam longe da meta?

Acontece. E é normal que, depois de uma campanha que não foi bem, o criador volte com mais experiência para fazer novamente.

O que falo é que tudo é possível com o crowdfunding. Depende principalmente do engajamento do criador.

O que mais, além disso, faz a campanha dar certo?

Em primeiro lugar é sua lista de contatos, o seu networking. Você deve movimentar suas mídias sociais, coletar e-mails de amigos e parentes, possíveis clientes. Essa lista precisa ser bem distribuída. Se você tem um networking de 100 ou de 1.000 pessoas, o resultado vai ser bem diferente.

Existem maneiras de crescer a lista, fazendo parcerias com organizações, no ambiente de trabalho, com celebridades, blogs e com a mídia.

O segundo ponto é o tempo para trabalhar na campanha. O criador deve separar um tempo por dia para ligar para os amigos próximos, fazer divulgação nas redes.

O terceiro ponto é a persistência. O crowdfunding testa muito seu produto e seu empreendedorismo. Quando sua campanha não avançar ou alguém não contribuir, você não pode se abater.

Em quanto tempo se pode voltar, depois de uma campanha que não foi bem?

Eu recomendaria, no mínimo, três semanas, para evitar repetir o erro das campanhas anteriores.

O que a gente sugere é revisar o motivo de a campanha não ter dado certo. Geralmente, é devido a falta de um plano de marketing.

Eu já lancei quatro campanhas de crowdfunding para questões sociais que queria apoiar. Eu conheço esse processo que os criadores passam. E todo mundo que trabalha na Kickante tem a obrigação de lançar, ao menos, uma campanha, para entender os desafios do criador.

Como compara o estágio do financiamento coletivo no Brasil e em outros mercados?

O país está no comecinho. Muito no começo. Nos Estados Unidos, o crowdfunding movimenta bilhões, nós ainda estamos nos milhões.

Estamos falando de um país de 210 milhões de habitantes. A maioria vive em situação de pobreza, mas o crowdfunding está aqui para todo mundo.

Temos, na Kickante, a maior campanha de arrecadação do Brasil, de mais de R$ 1 milhão, e campanhas para pais que querem R$ 500 para comprar remédios.

O crowdfunding está concentrado em São Paulo e Rio de Janeiro. Um ponto importante para nós é a popularização do modelo, que ainda não aconteceu. O crowdfunding ainda é um pouco elitista.

Nos Estados Unidos, todo mundo sabe o que é o crowdfunding. Ele é o braço direito do americano, opção para tudo, lançar uma empresa, um CD, um livro, um projeto social ou pessoal.

Estamos felizes com o crescimento, mas nossa meta é bem maior.

Você teve uma carreira executiva. Por que decidiu empreender?

Nos cargos que tive, na indústria da música e na arrecadação de fundos para ONGs, fiz muito do que faço hoje na Kickante. Abria escritórios ao redor do mundo. E cada um deles era uma pequena start-up. Foram mais de 30 deles.

Trabalhando com arrecadação para grandes instituições, chamou minha atenção o fato de que existe um custo alto para se arrecadar. No crowdfunding, esse custo é mais baixo e pago apenas sobre o que for obtido.

A transição foi fácil?

Foi muito simples. Nos meus trabalhos anteriores, tinha duas funções. Executiva em empresas estabelecidas nos Estados Unidos e responsável por abrir núcleos dessas empresas fora do país.

Cuidava da análise do sistema tributário de do país, de encontrar um coworking para instalar a empresa, da contratação da primeira pessoa, da relação com a mídia. Tudo isso.

Aprendi esse processo de ir do zero a algo, que demanda muita persistência e muito foco nos processos. E eu aprendo diariamente, lendo blogs, livros, conversando com pessoas que estão no mercado. Todas essas habilidades para se trabalhar em uma start-up foram desenvolvidas enquanto eu trabalhava em outras empresas. São músculos mentais que você vai exercitando. E, para mim, o mais importante de todos é a persistência.

O que é importante para você na hora de selecionar funcionários?

O número um, para qualquer start-up, é a curiosidade. Para resolver qualquer problema, existem dois caminhos, ou você encontra uma solução, ou uma desculpa. A pessoa curiosa tem a mente conectada para buscar novas soluções.

Sendo responsável por uma empresa de empreendedorismo social, penso que o segundo ponto mais importante é o coração estar no lugar certo. Todo dia que estamos na Kickante estamos trabalhando com sonhos. Todas as pessoas tem de se importar com isso, fazer todo o possível para os empreendedores tirarem suas ideias do papel.

O que toma mais seu tempo de trabalho hoje?

Inovação. Busco muito novas maneiras de fazer o que a gente faz. A Kickante foi a primeira empresa de crowdfunding no Brasil a fazer doações parceladas no cartão, a deixar que se inicie a campanha sem enviar informações financeiras antes, a inserir técnicas de arrecadação de fundos e de e-commerce (comércio eletrônico) no site, a lançar campanhas flexíveis (em que o criador do projeto recebe todas as doações, mesmo sem alcançar suas metas), a permitir o lançamento de campanhas sem curadoria.

Como manter um negócio social quando se tem investidores com expectativa de retorno?

Sendo muito cuidadosa com quem se aceita como investidor da empresa. O principal é se relacionar com pessoas que entendem o que estamos fazendo e o que a gente quer.

Não descarto um dia ter investimento de venture capital, mas é preciso que seja um que entenda o que a gente busca.

Você, como empreendedor, não pode ser desesperado na hora de escolher o investidor, pois isso é decisivo para o futuro da empresa. É como um casamento, existe um investidor para cada tipo de start-up.