Start-ups desafiam bancos com conta-corrente em aplicativos

Marcelo França, 39, sócio do Celcoin
Marcelo França, 39, sócio do Celcoin

Um grupo de empresas iniciantes quer fazer as transferências eletrônicas de dinheiro ficarem mais parecidas com o envio de mensagens pelo telefone.

A partir de aplicativos, PicPay e Celcoin permitem guardar e enviar dinheiro e fazer pagamentos pelo celular, sem a necessidade do uso de uma conta bancária.

As companhias iU e Ewally também testam produtos semelhantes e vão lançar o serviço ainda neste ano.

O carregamento das contas pode ser feito por meio de cartão de crédito (PicPay), transferência e boleto de pagamento.

Os empresários no comando dessas companhias esperam atrair tanto quem quer algo mais fácil e agradável de usar do que os serviços bancários tradicionais como também quem não tem acesso a eles.

NÚMERO

Em vez de ter um número de conta-corrente, o usuário tem seu dinheiro associado a seu número de telefone.

Para fazer transferências, não é preciso saber qual a agência e conta-corrente de quem irá receber o dinheiro. Esses dados são substituídos pelo número de telefone do destinatário.

Para conseguir acessar o dinheiro, ela precisa ser usuária do mesmo aplicativo. Se não for, recebe um torpedo informando que foi feita uma transferência para seu número e que poderá acessar o valor caso instale o app.

O aplicativo de mensagens WhatsApp e a rede social Facebook são referências para os empresários. O iU, por exemplo, terá uma lista de contatos similar a do primeiro. Quando cai dinheiro na conta, o usuário do app é avisado por um gritinho de “iuhuuu”.

Já o PicPay permite que o usuário “curta” uma transferência e envie mensagens associadas a ela.

“Fazer essas coisas do jeito tradicional é muito chato. Nosso objetivo é que as pessoas consigam fazer isso de forma fácil e divertida”, diz Diogo Roberte, 35, cofundador do PicPay..

MODELO DE NEGÓCIOS

Para pessoas físicas, não há custo para fazer transferências nem receber dinheiro a partir desses aplicativos.

Em geral, as empresas querem lucrar ficando com uma fração dos pagamentos feitos por quem usa os aplicativos.

Ou seja, esperam que, no futuro, os serviços sejam adotados por lojistas e, a cada compra em que seus aplicativos sejam usados, possam ficar com um pedaço da transação (tal como ocorre com as donas das máquinas para pagamento via cartão de crédito).

Também podem haver taxas para operações específicas, como o envio do dinheiro do aplicativo para uma conta bancária. No caso do Celcoin, a taxa é de R$ 5,90.

Devido à regulamentação do Banco Central, as contas em aplicativos podem armazenar até R$ 5.000.

DESBANCARIZADOS

Enquanto o PicPay busca atender clientes acostumados a serviços financeiros, as outras start-ups do setor esperam chegar justamente a quem não tem acesso a eles.

São pessoas das classes C, D e E que pagam suas contas em correspondentes bancários (como lotéricas e agências dos Correios).

Segundo pesquisa do Datapopular de 2014, o potencial desse mercado não é nada desprezível: são cerca de 55 milhões de brasileiros com mais de 18 anos nesta situação.

Marcelo França, 39, sócio do Celcoin, diz que esse público se afasta do sistema financeiro por medo das taxas cobradas de quem tem uma conta-corrente, de um lado, e por falta de interesse dos bancos em ampliar sua rede de serviços para essa faixa da população, de outro.

A Celcoin lançou seu aplicativo em novembro. França afirma que ele possui cerca de 50 mil usuários.

André Cunha (preferiu não informar sua idade), fundador da Ewally, afirma que seu público, formado principalmente por microempreendedores, como vendedores porta a porta e profissionais de reparos domésticos, perde dinheiro por estar fora do sistema bancário.

“É uma armadilha da pobreza. Para um profissional desses, buscar um dinheiro na casa de um cliente, por não ter como receber transferências eletrônicas, faz ele perder um dia de trabalho com viagem de ônibus”, diz.

GRANDES

Grandes empresas vêm observando o desenvolvimento desses aplicativos de perto.

Em maio, o Bradesco anunciou que a start-up de Cunha, a Ewally, foi uma das 11 selecionadas para participar da edição deste ano do InovaBRA, programa do banco para o apoio de start-ups do setor financeiro.

As empresas selecionadas recebem ajuda técnica e estratégica do banco e, dependendo de seu desenvolvimento, têm oportunidades de fechar parcerias ou receber investimentos do Bradesco.

A Ewally vai iniciar programa piloto de seu aplicativo na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, ainda neste ano.

O iU foi selecionado para participar de programa de aceleração da Wayra, empresa especializada em auxiliar o desenvolvimento de start-ups da Telefônica. A multinacional espanhola fica com participação acionária minoritária nas companhias escolhidas.

O aplicativo da empresa deve ser lançado ainda neste mês, segundo seu fundador, Carlos Lino, 43.

POTENCIAL

A estrutura menor e mais ágil das start-ups, em comparação com a dos grandes bancos, dá a elas uma chance de ganhar relevância no mercado, segundo Guilherme Horn, diretor-executivo e líder de Inovação na consultoria Accenture.

“O banco tem uma estrutura pesada, com muitas agências físicas e tecnologias antigas. Para eles, o custo alto que têm para atender a baixa renda, comparado com o retorno que ela oferece, faz com que o negócio não valha tanto a pena”, diz.

Mas o desafio para as estreantes é grande. Justamente pela margem de lucro oferecido por cliente que usa o serviço ser baixa, essas empresas precisam descobrir como crescer rapidamente, sem elevar muito seu custo”, diz o consultor.