Empreendedoras trocam carreira em multinacional por marcenaria

Por Filipe Oliveira
Letícia Piagentini (a esq.) e Fernanda Amaral, sócias da marcenaria Lumberjills (divulgação)
Letícia Piagentini (a esq.) e Fernanda Amaral, sócias da Lumberjills (divulgação)

Fernanda Amaral, 32, sócia da marcenaria e tapeçaria Lumberjirlls, atuava como gerente comercial de uma multinacional da área de locação de escritórios. Ela diz que gostava de seu trabalho, mas ficava descontente com certas inflexibilidades, como ter de cumprir sempre os mesmos horários, não poder tomar determinadas decisões.

Começar seu negócio, porém, envolveu aprender uma nova atividade e enfrentar o preconceito de estar em um mercado eminentemente masculino.

Ela conta que a ideia veio de uma colega de trabalho, Letícia Piagentini, 33, com quem já conversava sobre seu desejo de empreender, mas ainda não sabia em que área.

A marcenaria surgiu para as duas de modo despretensioso. Primeiro Piagentini começou a fazer cursos de desenho de móveis, por hobby. Gostou e foi se especializando, buscando novos cursos.

“Um dia ela me contou que queria montar uma marcenaria comigo. Eu disse que ela devia estar louca”, conta Amaral.

Um argumento de Piagentini a convenceu a tentar. Muitos amigos de Amaral pediam que ela os ajudasse a reformar suas casas, o que era, ao menos, um indício de bom gosto.

Apostando nessa intuição, as duas deixaram seus empregos e abriram a empresa no começo de 2015, inicialmente vendendo para familiares e amigos.

No início, Piagentini tinha mais experiência na confecção das peças e dava as coordenadas. Com o passar do tempo, Amaral foi se especializando, principalmente em cursos no Senai de tapeçaria e marcenaria.

As duas trabalham sozinhas, o que significa que compram as peças, serram, licham, pintam, fazem entregas e montagens, cuidam do marketing, atendem clientes.

O negócio foi instalado na garagem da casa da sogra de Piagentini. Elas planejam ir para novo espaço em 2017.

Além de ser um negócio que não exigiu muito investimento, Amaral diz que teve coragem de apostar na ideia da marcenaria por ver a possibilidade de suprir uma demanda do mercado por móveis pequenos, para público jovem, feitos sob medida e que seguissem tendências das redes sociais, como Instagram e Pinterest.

A internet é a principal forma de divulgação do negócio. As sócias planejam abrir uma loja virtual no futuro, com itens que saem com mais frequência e podem ser desenvolvidos em escala um pouco maior.

Elas produzem cerca de 12 móveis por mês. O tíquete médio de cada cliente fica entre R$ 2.000 e R$ 3.000.

 

Banqueta produzida pelas sócias da Lumberjills (divulgação)
Banqueta produzida pelas sócias da Lumberjills (divulgação)

FEMINISMO

Amaral afirma que não pensou em feminismo ou questões de gênero quando abriu a LumberJills. “Estava apenas indo atrás de um sonho. É muito bom terminar um trabalho e dizer que fui eu quem fiz”.

Porém, com o passar do tempo, assumir posições foi se tornando necessário.

“Esse é um mundo machista, a gente sofre muito. A Letícia foi fazer estágio em marcenaria e nem tinha banheiro para mulher. Tudo te pressiona para você sair”, diz Amaral.

Entre suas desilusões, conta ter ouvido de clientes que não fechariam negócio com ela por serem mulheres. Também já se sentiu sendo tratada com desconfiança por fornecedores, com perguntas insistentes sobre os motivos de suas  compras.

“Tenho de explicar porque quero comprar um parafuzo, todos dão palpites. Quando vou a uma loja com um homem junto, isso não acontece.”

Outro plano das sócias é ampliar a equipe no ano que vem, se possível contratando apenas mulheres.

“Nunca abrimos uma marcenaria para lutar pelo feminismo, abrimos para sermos marceneiras. Temos inclusive uma formação machista arraigada, que vêm de nossas famílias. Mas depois de começarmos, vimos a necessidade de levantar essa bandeira.”

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Alce montável da empresa Lumberjills (divulgação)
Alce montável da empresa Lumberjills (divulgação)