Brasileiras dão volta ao mundo em busca de histórias de mulheres empreendedoras

Por Filipe Oliveira
Fernanda Moura (a esq.) e Tassiana Mello, do Girls on the Road, em café na China (divulgação)
Fernanda Moura (a esq.) e Taciana Mello, do The Girls on the Road, em café na China (divulgação)

 

Duas brasileiras estão dando a volta ao mundo em busca de histórias inspiradoras de mulheres que estão à frente de negócios.

Idealizadoras da iniciativa “The Girls on the Road” (garotas na estrada), Taciana Mello, 47, e Fernanda Moura, 42, deixaram carreiras executivas em grandes consultorias internacionais e agora estão no meio de jornada que passará por ao menos 15 países, em 5 continentes,  no decorrer de um ano.

Em cada visita, elas entrevistam empreendedoras e figuras importantes do mercado local (investidores, empresários, responsáveis por ONGs, professores, etc).

O projeto recebeu o nome de “F♀unders” (fundadoras).

Ele deve dar origem a um documentário e séries que serão publicados na internet na metade de 2017. Algumas entrevistas já podem ser encontradas, em inglês, na página da Girls on the Road no Facebook, em https://www.facebook.com/thegirlsontheroad.

Desde julho, a dupla já passou por Estados Unidos, Canadá, México, Japão, Coreia do Sul, China e Cingapura. Nessa jornada, ouviram histórias de 115 empreendedoras.

Em entrevista que as duas concederam ao Plano de Negócios, falando via Skype das Filipinas, Moura conta que a ideia para o projeto surgiu enquanto elas estudavam em Berkeley, na Califórnia (EUA).

“Começamos a perceber que raramente encontrávamos empresas lideradas por mulheres. Fomos ver estudos internacionais sobre o assunto e percebemos que, no mundo inteiro, elas estavam em menor número do que os homens.”

Um dos motivos para isso é a falta de exemplos que incentivassem mais empreendedoras, diz Mello. Dessa conclusão veio a ideia de filmar e mostrar histórias que pudessem ajudar novas empresárias.

DESTINOS

A escolha dos países por onde a dupla deve passar levou em conta os diferentes tipos de empreendedorismo, setores e culturas que são mais frequentes em cada um deles.

Em países africanos, por exemplo, elas esperavam encontrar mais empreendedoras que assumiram a frente de um negócio por necessidade financeira.

Em oposição, o empreendedorismo que elas esperam ver na Europa é o chamado “por oportunidade”, mais ligado à descoberta de lacunas no mercado e à realização pessoal do que à subsistência.

Para chegar até as empreendedoras, a dupla busca indicações junto a organizações de apoio ao empreendedorismo em cada país. Também funciona muito o contato via LinkedIn. “Praticamente 100% de nossas solicitações são aceitas”, diz Mello.

Fernanda Moura, do Girls on the Road, em entrevista na China (divulgação)
Fernanda Moura, do Girls on the Road, em entrevista na China (divulgação)

DESAFIOS GLOBAIS

Ela conta que, durante a viagem, passou a perceber sua situação como privilegiada em comparação com a de empreendedoras de outros países.

Temos oportunidade de escolhermos que opções seguir. Em outros países mais avançados em outros aspectos, como o Japão, as mulheres se sentem muito presas. Há pressão para que elas casem, tenham filhos, e, a partir daí, não trabalhem mais, mesmo que sejam extremamente capacitadas.”

Moura confirma a percepção citando caso encontrado na Coreia do Sul:

“Entrevistamos uma sul-coreana que sempre teve o desejo de estudar inglês. Quando pediu para fazer aulas para a mãe, ouviu que já se havia investido muito dinheiro na educação dela, mais do que isso seria desperdício, pois
a filha iria casar e não iria adiantar nada o esforço.”

No geral, percebe-se que em quase todo país a mulher precisa dar mais justificativas do que o homem para se tornar empreendedora, tem mais dificuldade para acessar crédito e investimentos e tem de lidar com a obrigação de dividir o tempo entre empresa e cuidados com a casa e a família, explica a dupla.

Uma surpresa das viajantes, veio da China, país onde, segundo elas, a desigualdade de oportunidades para homens e mulheres é menor, ao menos em cidades como Pequim e Xangai.

A hipótese de Mello e Moura é que, devido a política do filho único que, por mais de 30 anos, impediu casais de terem mais de um filho, levou a uma criação mais parecida para meninos e meninas.

“Essas cidades estão muito voltadas ao capitalismo, há um investimento enorme para desenvolvimento de empresas e as empreendedoras são muito bem qualificadas”, diz Moura.

COISA DE MULHER?

Quando mulheres empreendedoras superam as barreiras impostas a elas, há espaço para quebra de paradigmas.

Mello destaca a entrada de mulheres em segmentos que antes eram associados apenas a empresários.

“Já entrevistamos mulheres que trabalham com inteligência artificial, indústria, engenharia, agricultura. Temos visto mulheres de todas as cidades se lançando nas áreas mais distintas”, diz.

Tassiana Mello em entrevista nos EUA (divulgação)
Taciana Mello em entrevista nos EUA (divulgação)

SEM CONFORTO

A maior parte das despesas do projeto está sendo bancada por Mello e Moura, o que implica controle de orçamento e viagens sem preocupações com muito conforto:

“Já chegamos em casas alugadas pelo Airbnb, depois de 20 horas sem dormir, e vimos que tudo ali era horrível, que não tinha nada a ver com a imagem que estava no site”, conta Mello.

Antes de iniciar a empreitada, elas fizeram uma campanha de financiamento coletivo para comprar equipamentos de gravação, que elas mesmas operam.

“Jogamos nas 11 posições, tivemos de aprender como filmar, cuidar do som, da luz, carregar equipamento”, diz Moura.

Elas buscam novos patrocínios e parcerias para viabilizar a continuidade do projeto no próximo ano.

LEITOR

Acompanhe mais histórias de empreendedorismo curtindo o Plano de Negócios no Facebook aqui.