‘Brasileiros precisam pensar globalmente para país ter start-ups bilionárias’, diz professor de Stanford

Por Filipe Oliveira

Para Jonathan Levav, professor da Universidade Stanford (EUA), há muitas oportunidades para empreendedores no Brasil, especialmente para aqueles que percebem carências típicas do mercado local e solucionam problemas do país.

Por outro lado, o desenvolvimento de start-ups bilionárias a partir do país depende de um olhar para fora. Empreendedores brasileiros só chegarão lá se olharem além das fronteiras nacionais e enfrentarem desafios globais, segundo o professor.

Levav é diretor acadêmico na América Latina do programa Stanford Ignite. Dedicado a empreendedorismo e inovação, O curso oferecerá em São Paulo, durante 10 semanas, a possibilidade de aprender com professores da prestigiosa escola do “Vale do Silício”  (região no Estado da Califórnia onde estão sediadas as maiores empresas de tecnologia) que colaborou com o desenvolvimento de companhias como Google e Cisco.

Além de receber conteúdo de negócios, durante o período do curso, os alunos irão desenvolver projetos e start-ups, tendo auxílio de professores e mentores.

O programa foi trazido para o Brasil pela primeira vez em 2015.  Também há versões dele na Índia, China, Reino Unido e Chile.

O Stanford Ignite acontece entre os dias 18 de agosto e 22 de outubro de 2017, em São Paulo, por sete finais de semana não consecutivos.

As inscrições estão disponíveis até a próxima terça-feira (4). Haverá seleção, feita a partir de análise de currículo e entrevista.

O custo para participação no curso é de US$ 10 mil. Veja mais informações no site do programa.

Leia abaixo trechos de entrevista que Levav concedeu ao blog.

Jonathan Levav, professor de Stanford e diretor do programa Ignite na América Latina (divulgação)

 

Plano de Negócios – Por que é importante para Stanford oferecer o curso no Brasil?

Jonathan Levav – Muito do que se desenvolve no “Vale do Silício”surge a partir do trabalho de nossos estudantes e professores, de ideias geradas na universidade ou de pessoas que se conhecem lá e decidem abrir negócios.

Acreditamos que cumprimos bem esse papel de fomentar o empreendedorismo, porém isso está disponível apenas para as pessoas que estão ali.

Então assumimos a missão de globalizar a escola, fazer aquilo que somos bons acessível de alguma forma para outras partes do mundo.

Quando olhamos para o Brasil, vemos que há muita atividade empreendedora, é um grande mercado. Além disso, temos alunos nossos formados no país, e muito do programa depende deles.

 Qual sua avaliação do ambiente de negócios para empreendedores no Brasil?

Vi muitas startups aqui e muitas delas são realmente boas em resolver problemas próprios do Brasil.

Por exemplo: é difícil obter um cartão de crédito no país. Então criou-se o Nubank (cartão de crédito que não cobra tarifas e é gerenciado a partir de aplicativo).

Também é possível trazer soluções de outros mercados para o Brasil. Há companhias brasileiras que fazem isso, como o Kekanto, uma versão nacional  do Yelp (aplicativo de guia para encontrar locais de interesse).

Você pode ganhar muito dinheiro resolvendo questões brasileiras. O problema disso é que o mercado brasileiro é muito grande para te dar a motivação de pensar em questões globais. É um desafio psicológico.

Como a situação política e econômica influencia o mercado?

A incerteza econômica nunca é boa. De tempos em tempos há notícias de algum novo escândalo no Brasil. Isso não algo que investidores estrangeiros gostam.

Há bons fundos de investimentos para empresas iniciantes no Brasil, com possibilidade de financiá-las até determinado valor. Mas, se você precisa de um investimento maior, é muito difícil encontrá-lo nesse mercado.

Mas algo bom que a crise traz para brasileiros é que você aprende a viver com essas incertezas. Na Argentina, por muito tempo, se viveu com duas taxas de câmbio. Amigos meus eram ótimos em explicar como lidavam com isso no dia a dia, para importar e exportar. Isso dá uma característica muito boa para os empreendedores, a capacidade de improvisar.

Algo pode ser feito para atrair mais investimentos:?

Conforme mais empreendedores tiverem sucesso e se tornarem investidores, podem melhorar o cenário.

Um dos melhores casos que conheço é do fundo Kaszek Ventures, criado pelos fundadores do Mercado Livre (empresa de origem Argentina). A maioria de seus investimentos são no Brasil, pois é o maior mercado na América Latina.

Então é uma questão de tempo até vermos empresas bilionárias nascidas no Brasil e vendas de companhias investidas por fundos por valores relevantes, coisas que participantes do mercado dizem sentir falta?

Você não vai se tornar um unicórnio (empresa que vale mais de US$ 1 bilhão) se pensar apenas no mercado brasileiro.

Como você se torna um? Quando uma multinacional compra você por um valor muito grande, por estar resolvendo um grande problema, ou quando abre seu capital nos Estados Unidos.

Se você está resolvendo um problema brasileiro, você não será tão interessante para uma compra do Google, pois ele quer soluções que possam ser aplicadas em vários mercados.

Se você constrói uma loja virtual de produtos cosméticos, pode ser grande no Brasil. Mas, se resolve um problema de infraestrutura de computação, empresas do mundo inteiro poderiam se interessar por sua solução.

Além disso, se a economia passa por dificuldades, isso afasta investidores e cria mais um desafio no caminho de uma venda de sucesso.

Aconselharia brasileiros a pensarem globalmente?

Diria que isso depende principalmente de seus objetivos. Conheço muitos empreendedores incríveis que querem resolver problemas brasileiros, pois são apaixonados pelo Brasil. Seria ótimo resolver algo global, mas eles querem fazer do Brasil um país melhor para quem vive aqui.

É uma decisão pessoal. Como dizer que eles escolheram a coisa errada?

O que Stanford pode trazer para os brasileiros?

Temos um banco de conhecimento, estamos conectados a uma importante rede de pessoas, parte do sucesso de ser empreendedor é ter essas conexões.

Não se pode garantir sucesso, mas podemos aumentar as chances dele acontecer. O que propomos é expor os alunos a ideias que ajudaram empreendedores a terem esse sucesso e ajudá-los a entrar nessa comunidade de ajuda mútua.

Qual o perfil dos alunos do curso que acontecerá em São Paulo?

São dois perfis. Primeiro empreendedores internos, que trabalham em grandes companhias e querem liderar a inovação em suas empresas.

Outro grupo é de pessoas que têm ideias e querem aprender como transformá-las em empresas e terem produtos que possam ser vendidos. Um mestre em engenharia que desenvolveu uma inovação e quer fazer dela um negócio, por exemplo.

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