Conheça bastidores do programa de aceleração de start-ups do Google no ‘Vale do Silício’

Por Filipe Oliveira

Tudo acontece em um escritório amplo no centro financeiro de San Francisco (EUA), no qual grupos de fundadores de 31 start-ups ocupam a sala principal de um dos andares, cada empresa com sua mesa, para um dia cheio de reuniões.

Na maior parte do tempo, os empreendedores não precisam sair do lugar, em geral eles apenas esperam até que alguém se aproxime de sua mesa para o início da próxima reunião.

O cronograma é rígido. O nome de quem será o próximo a conversar com cada grupo de empreendedores e o horário de cada uma dessas discussões fica sempre visível em um monitor no canto da sala.

“Vocês já tentaram criar uma ferramenta de interação entre usuários? Pensam em novos serviços para os clientes?” são algumas das muitas perguntas feitas por Brett Bouchard, quando chega sua vez de conversar com Fernando Gadotti e Nelson Haraguchi, da brasileira DogHero.

A start-up criou uma plataforma na internet que permite que usuários que vão viajar hospedem seus cachorros na casa de outros clientes da companhia. Com 28 funcionários, possui 10 mil pessoas cadastradas para receber animais de estimação a partir do serviço.

As perguntas de Bouchard, um especialista do Google em aplicativos, tinha como objetivo ajudá-los a descobrir uma forma de fazer com que os clientes da DogHero se tornassem mais fiéis a ela, meta apontado pelos próprios empreendedores durante conversa presenciada pela reportagem.

Ele é um dos mais de 150 mentores, de 21 países, convidados pelo Google para participar das duas semanas de trabalho intensivo do programa de aceleração de novas empresas Google LaunchpadAccelerator, dedicado a companhias de mercados emergentes e atualmente em sua terceira edição.

Empreendedores durante a semana de atividades em San Francisco (EUA) do programa de aceleração do Google (divulgação)

Os aconselhamentos de especialistas para empreendedores em ascensão são a principal ferramenta da companhia para acelerar o desenvolviemnto dos projetos das empresas apoiadas.

Entre os que dividem suas experiências com os novos empreendedores executivos do próprio Google, de outras empresas de tecnologia (como Uber, Airbnb e Intel) e empreendedores experientes. A participação deles no programa é voluntária.

 

 

 

Para a edição mais recente, ocorrida entre janeiro e fevereiro deste ano, foram selecionadas 31 empresas de nove países (Brasil, Colômbia, Argentina, México, Cingapura, Vietnã, Índia, Filipinas e Indonésia).

Há desde serviço criado no Vietnã que usa inteligência artificial para quem quer melhorar a pronúncia no inglês até aplicativo desenvolvido no México que identifica a presença do vírus HIV no sangue.

Segundo o israelense Roy Glasberg, líder global do programa de aceleração do Google, os mercados escolhidos juntam grande potencial de crescimento, de um lado, e desafios para novas empresas, de outro.

Entre as barreiras para que grandes companhias de internet floresçam nesses mercados ele aponta dificuldade para obter capital, falta de histórias de sucesso que motivem empreendedores e alta burocracia.

“Estamos construindo algo que funciona como uma faculdade. As start-ups compartilham suas experiências aqui e oferecemos as nossas a elas, para que levem as melhores práticas para suas regiões.”

Segundo ele, as 45 empresas que participaram das primeiras edições do Launchpad Accelerator (ambas em 2015) levantaram US$ 80 milhões após o programa.

INVESTIMENTOS

Além de ter a viagem paga pela companhia norte-americana, os empreendedores também recebem US$ 50 mil para investir em seus negócios. Esse tipo de investimento é comum em programas de aceleração de start-ups.

Após as duas semanas nos EUA, elas são acompanhadas por mais seis meses pelo Google em seus mercados, tendo acesso a mais conselheiros indicados pela companhia.

O que é diferente do que acontece ma maioria dos demais programas de aceleração é que as start-ups apoiadas não cedem participação acionária ao Google.

E o que o Google ganha com isso?

Entre os objetivos apontados por executivos da empresa estão aumentar o conhecimento sobre particularidades dos negócios nesses mercados em expansão e fomentar a inovação nessas regiões —o que levaria indiretamente a um maior uso de produtos do próprio Google para empresas.

De fato, os empreendedores participantes do programa recebem créditos para serem usados em produtos do Google e assistem palestras sobre ferramentas em áreas como inteligência artificial e computação em nuvem que a companhia

Mas empreendedores ouvidos pela Folha garantem que não há qualquer obrigação de uso de qualquer produto.

“Não há esforço de vendas pelo Google nem compromisso de que a gente tenha que usar ferramentas dele”, afirma Andre Penha, sócio da start-up QuintoAndar, que possui plataforma para locação de imóveis a partir da internet.

Penha exemplifica dizendo que sua empresa usa serviços de computação em nuvem da Amazon e, por enquanto, não vê razão para mudar de fornecedor desse serviço, mesmo tendo recebidos créditos do Google.

SELEÇÃO

Para chegar às start-ups que foram até San francisco, o Google analisou mais de 1.200 projetos.

São esperados negócios que já demonstrem algum grau de maturidade (tenham conseguido ao redor de US$ 5 milhões de investimento, tenham 5 milhões de usuários ou um produto com capacidade de manter clientes ativos, por exemplo).

As inscrições para a quarta edição terminam nesta segunda-feira. Pela primeira vez, a seleção incluirá países da África (Quênia, Nigéria e África do Sul) e Europa (Polônia, República Checa e Hungria).

* A reportagem viajou a San Francisco a convite do Google

START-UPS EMERGENTES

Conheça alguns dos projetos apoiados

 

Portal Telemedicina
País: Brasil
O que faz: Plataforma que permite envio on-line de exames em clínicas pequenas ou de regiões remotas para receberem laudos de médicos especialistas
Mercado: 200 clínicas clientes no Brasil e 23 médicos parceiros
O que busca: Definir plano para expansão internacional

Nuvem Shop
País: Argentina
O que faz: Criação de sites e lojas virtuais para pequenas e médias empresas
Mercado: 400 mil lojas na América Latina, metade delas no Brasil
O que busca: Aprimorar o produto permitindo diferentes formas de uso de acordo com perfil do cliente

Qlue
País: Indonésia
O que faz: Aplicativo para que cidadãos informem a administração pública de problemas na cidade
Mercado: Funciona em seis cidades da Indonésia, com 800 mil usuários
O que busca: Aprimorar suas as formas de usar os dados obtidos nas interações com usuários

Unima
País: México
O que faz: Desenvolveu teste para identificar o vírus HIV a partir de um pedaço de papel com molécula modificada, um aplicativo que tira fotos e uma gota de sangue do paciente
Mercado: Em testes clínicos, deve ser lançado neste ano em mercados da América Latina e África
O que busca: Conhecer ferramentas tecnológicas, como inteligência artificial, para melhorar a eficiência do negócio

 

 

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